“Você não é fotógrafo! Onde está sua máquina?”

“Você não é fotógrafo! Onde está sua máquina?”

 

Por Ricardo Reis

Andando ao léu com minha ex-esposa pelo bairro Marais em Paris, me deparei com a exposição de uma das figuras mais importantes na minha formação fotográfica na galeria Polka. Quando entrei me deparei com um senhor bem idoso, sentado no fundo da galeria, distribuindo autógrafos. Era o próprio Marc Riboud.

Rapidamente comprei um Photo Poche (coleção de livros de bolso de vários fotógrafos) e me coloquei no final da fila - eu era o último e depois ele iria embora. Quando me sentei frente à ele, com suas mãos já trêmulas, cansado e de mal humor, reclamando para a pessoa que o acompanhava que estava com fome e querendo ir embora (e a pessoa apenas mandando ele comer alguns docinhos a mais), ele me olhou com o semblante meio de desdém. Me apresentei com meu francês de criança de dois anos, disse que era fotógrafo e a primeira coisa que falou foi:

- "Você não é fotógrafo!"

Meio sem jeito e encabulado respondi que, apesar de não ser assim um baita fotógrafo, vivia de fotografia e tal. Ele simplesmente me interrompeu:

-"Onde está sua máquina? A minha (uma Canon EOS de filme, uma 5 se não me engano) está aí em cima da mesa! Você não pode ficar sem sua máquina nunca!"

Essa lição levei pro resto da minha vida (apesar de que minha máquina estava na bolsa, só a tinha guardado porque não podia fotografar dentro da galeria). Depois do papo furado de autógrafo, uma assinatura trêmula no Photo Poche, palavras desinteressadas sobre a vontade de conhecer o Brasil e essas coisas, ele me perguntou se gostava de alguma foto dele em especial. Respondi de pronto sobre uma imagem em uma janela na China...

Foi esse o exato momento que um raio atingiu a mente daquele senhor e o transformou novamente em um jovem cheio de energia!

Seus olhos faiscaram com o fogo de quem desperta de um coma e tive a nítida impressão de que, enquanto ele arrancava o livro da minha mão, ia direto pra página da foto e me contava a história da imagem - ele tinha se transportado para aquele momento novamente.

Seus dedos (me lembro bem das suas mãos calejadas) mostravam como a foto era bem alinhada, sobre como quem tinha "visto" a foto era uma de suas ex mulheres, ele não se lembrava se era a segunda ou terceira, mas que tinha ficado duas horas ali naquela loja perdida, por isso do alinhamento perfeito, e de como aquela chinesinha ficava indo e voltando tentando entender o que aquele gringo estranho tanto ficava parado lá dentro, até ele entender que a foto era sobre aquela comunicação entre ele e ela.

Depois disso sorriu pra mim quando agradeci por ter feito aquela imagem e de como ela tinha mudado minha trilha na fotografia.

Nos despedimos com ele dizendo que quando viesse ao Brasil poderíamos tomar um café - como quem convida para um jantar sem passar o endereço, mas com aquele sorriso de cumplicidade, de quem entende sobre o espírito livre, que sabe que aquele momento era o momento em que cruzamos nossos caminhos e marcamos um ponto indelével, curto mas intenso na vida um do outro, e era tudo o que podíamos ter trocado...

Suas últimas palavras para mim foram: "... E nunca mais fique sem sua máquina à mão!"

Pode deixar Monsieur Riboud. Obrigado mais uma vez por marcar meu caminho com a certeza que a fotografia é, principalmente, vida...

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