Do analógico ao digital: papo velho, novas ideias

Do analógico ao digital: papo velho, novas ideias

Do analógico ao digital: papo velho, novas ideias

Essa discussão de equipamentos nunca me atraiu muito, principalmente quando comecei profissionalmente na fotografia – época que acontecia a transição do analógico para o digital.

Se pensarmos na fotografia de 15 anos atrás, o filme era vida e o digital era lixo. Hoje, obviamente, isso não cabe mais. São meios completamente diferentes, mas com alguma coisa em comum: partilham a mesma ótica e o jeito de "operar".

Posso afirmar que a película me ajudou muito. Quando fiz 15 anos meu avô teve a brilhante ideia de me presentear com uma máquina que estava jogada em algum canto, acompanhada de um fotômetro analógico que não funcionava. O velho mal sabia aonde aquele presente iria me levar....

Eu não tinha a menor ideia de como aquilo funcionava e perdi uma boa grana com filme rasgado por não saber colocar direito, imagens pretas ou brancas - sem a menor noção de fotometria -, desfocadas e tremidas. Entendi que precisava de ajuda e encontrei na biblioteca da escola um tal de "Tudo Sobre Fotografia", do Michael Busselle e foi ali que entendi para que serviam aqueles desenhos na caixinha do filme.

Como eu não tinha um fotômetro, aprendi a pensar na luz e a compensar as velocidades com diafragmas, usando a bula do filme e parei de jogar dinheiro fora.

Ansel Adams: meu primeiro herói na fotografia

" Existe gente demais fazendo somente o que lhes disseram para fazer [...]. Tire proveito de tudo: não se deixe dominar por nada, a não ser por suas próprias convicções. Jamais perca de vista a importância essencial do ofício. "

Ansel Adams

Lembro que li a trilogia desse senhor em inglês (na época sem Google Translator) acompanhado por um Michaelis de bolso e uma paixão absurda. Devoto da técnica, esse cara sabia que ela servia como caminho para alcançar a arte e brindava o fotógrafo com um certo poder – tornando quase um feiticeiro.

Aquele discurso de qualidade e cuidado com a foto me tomou. Carregava minha "pentaxzinha", um fotômetro de mão (sim, consegui um), tripé, um filtro vermelho densidade cerveja bock, um polarizador, um filme 50 puxado para 32 e ia para o centro de São Paulo fotografar igrejas e arquiteturas urbanas. Meu barato era calcular tudo: medias e medidas, disparador, diafragmas fechados.... Voltava para o laboratório e saia com uma ampliação que era um veludo...Papel fibra, sabe? Aquele processo era do caralho.


Quando descobri Carlos Moreira

Vi em algum lugar uma foto do genial Carlos Moreira, um grande mestre que formou gerações de fotógrafos. Pirei! Com ele eu entendi que era possível estar em essência dentro da imagem. Um preto e branco livre, lindo, que sensibilidade.... Fui para rua com liberdade para flanar por aí capturando a vida (anos depois ele se tornou meu professor de verdade, outra historia para outro dia).

Nessa época ganhei uma Pentax eletrônica, mas confesso que ela não me "pegou". Me acompanhou por um tempo e flagrou algumas das estradas percorridas no começo da minha vida cigana e hoje encontra-se em algum armário por aí.

Então, sem mais nem menos, ele chegou de vez: O digital. Quebra cofrinho, faz conta em dólar... Ruídos, aberrações e a vida transformada em um monte de "1" e "0", que saco.

A verdade é que era rápido, prático e as possibilidades se ampliaram com lentes mais modernas. Bom, já que precisa investir nesse tal digital, vamos aproveitar, né? Que tal uma analógica mais moderna para aproveitar melhor as lentes? Por que não uma analógica que possa partilhar nas minhas lentes novas?

Achei uma Canon A2. Usei pouco, mas ela me acompanhou em alguns carnavais, embalada no plástico do pacote de cerveja e se banhou pelas ruas de São Luiz do Paraitinga. Também foi companheira em algumas trilhas por lugares desolados, fazendo peso na mochila. Eu precisava ter uma película por perto! Mas era grande e desengonçada...


FM2: a história da gata

Até que ela apareceu, a FM2: usada, preta e linda. Fotografou festas infantis por anos, foi muito bem tratada! Penso nela e lembro da música do Chico Buarque, "História de uma Gata".

Andava com ela por aí sem tripé ou filtros. Ok, na minha bolsa sempre tem um polarizador, vai saber... A vida era caminhar com a minha Nikon indestrutível (vai por mim, ela aguenta o tranco). Virou meu xodó, criei uma intimidade com ela que tive com poucas pessoas.

Para os que gostam de PB: peguem uma máquina de filme, qualquer uma. É caro e difícil encontrar filme e insumos? Sempre foi. Impossível? De jeito nenhum. Eu te ajudo se quiser.

Suas fotos nunca mais serão as mesmas. A intimidade com o equipamento e sua autoconfiança darão um salto qualitativo estratosférico, mas isso é apenas a opinião de quem teve a chance de viver a transição entre duas formas de se fazer a mesma coisa: olhar para o mundo através de um pedaço de metal e vidro para tentar enxergar dentro de si mesmo.


capa analogico

Por Ricardo Reis

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